Dois poemas recitados por Selene Furquim
"Antes, crescei na graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." (2 Pe 3.18 a)
Dois poemas recitados por Selene Furquim
DIA DO PASTOR - 2° domingo de junho
Texto base: Jo 10.14-16
Objetivo: 1.
Apresentar Jesus como o bom pastor; 2. Mostrar a falibilidade humana em contraposição com a perfeição de Cristo; 3. Conscientizar da necessidade de as "ovelhas" auxiliarem seu pastor
Material: cards
de ovelhas com mensagens sobre o pastor
Faixa etária: Juniores e adolescentes
(Ler o texto
base)
Inicie essa aula
fazendo uma análise do 1° versículo, começando com a pergunta:
"Alguém sabe me dizer por que Jesus se autodenominou 'o bom pastor'?"
Chame a atenção deles para o uso do artigo "o" utilizado na frase, expicando-lhes que foi usado com a intenção de passar a ideia de que não há
outro pastor com as mesmas características que Cristo.
Pergunte-lhes o
que pensam sobre essa afirmação de Jesus (Ouça as opiniões). Explique-lhes que Jesus sabia que havia muitas pessoas
boas, inclusive pastores de ovelhas, no entanto, ele usou
essa expressão para fazê-los lembrar que nenhum ser humano é
totalmente bom, pois as pessoas são falhas em seus sentimentos - leia Mc 10.18.
Leve-os à
compreensão de que trazemos conosco a semente do pecado que, às
vezes, nos faz ter atitudes ou pensamentos ruins - mostre-lhes 1 Jo
1.8-10.
Pergunte-lhes:
"Quem aqui, quando ficou muito bravo com alguém, não teve vontade de ver
essa pessoa se dar mal?"
Faça-os entender
que, mesmo que não tenhamos feito nada de mal contra alguém de quem não
gostamos, muitas vezes, o nosso coração desejou isso. E Jesus disse que todos os bons e
maus desejos surgem do coração. Então, isso deve ser levado a sério - Leia Mt
15.19. Quanto a Jesus, ele seria incapaz de praticar o mal, porque sendo
Deus, ele é amor - Jo 4.8. Inclusive, ele amou a humanidade, quando ninguém queria saber dele - leia Rm 5.8-11.
Há muitas pessoas
que só conseguem amar aqueles que as favorece, ou seja, elas têm um amor
fingido. O apóstolo Paulo falou seriamente sobre isso em Rm 12.9.
Diga-lhes que a
missão de pastor de igreja é muito difícil. Ele precisa imitar a Jesus para
cuidar bem do seu povo. Pergunte-lhes se eles sabem para que existe pastor na
igreja e qual é o trabalho dele - Peça para lerem Ef 4.11,12; 2 Tm 4 2 e At 29.28
Lembre a eles que o pastor também é um ser humano, de modo que é sujeito a pecar, assim como qualquer outra pessoa. Ele também tem sentimentos e tentações como todo mundo. Conte-lhes que, um dia, o apóstolo Paulo ficou tão cansado de ser julgado pelo pobo da igreja que desabafou diante deles mostrando àquelas pessoas que seu trabalho não era fácil, mas que ele procurava fazer o melhor com a ajuda de Deus - Instrua-os a lerem em casa o texto de 2 Co 11.23.
Diga-lhes que o pastor é um homem de Deus, mas também é humano, por isso, precisa do nosso apoio, das nossas palavras de ânimo, da nossa compreensão diante das suas limitações, do nosso respeito a sua autoridade pastoral e da nossa oração constante por ele, pois enquanto o pastor estiver nesse mundo, assim como qualquer outro cristão, estará sujeito a cair da graça - leia ou cite 1 Co 10.12.
Faça-os compreender que o único pastor perfeito é Jesus, mesmo assim ele sofria, chorava e também contou com amigos que o ajudavam nos momentos difíceis (fale um pouco sobre os amigos de Jesus como, por exemplo, Lázaro e seus discípulos mais chegados).
Confirme-lhes que os nossos pastores são pessoas
esforçadas que, debaixo da autoridade de Deus e pela ajuda do Espírito Santo, estão cuidando da nossa vida espiritual. Mas, não devemos olhar para eles como se fossem super homens, devemos compreendê-los como sendo nossos co-servos, isto é, pessoas que servem a Deus junto conosco, exercendo o papel que o Senhor lhes confiou e necessitados de nosso apoio, principalmente em oração.
A DEPRESSÃO NAS LINHAS DOS VERSOS:
Análise dialógica entre o poema Nascer de Novo, de Drummond, e a Bíblia
De
acordo com o Dr. Ismael Sobrinho – médico, especialista em psiquiatria e
psicogeriatria, há alguns traços comportamentais em pessoas que têm incidência
de depressão, dentre as quais ele destaca “o perfeccionismo, a preocupação excessiva,
a baixa autoestima, a timidez e alta sensibilidade à críticas” (2019, p.34).
Sobrinho
reitera que “sendo as causas da depressão multifacetadas, há a participação de
componentes genéticos, psicológicos, ambientais, espiritual e neuroquímicos” (2019,
p.63). No entanto, o que nos importa por ora, é compreender que a depressão existe
e está em plena atividade, embora haja cristãos que insistam em negar sua
ocorrência no meio dos fiéis, conforme se verifica nas palavras do citado
médico:
Em mais de uma década trabalhando como
psiquiatra vejo que há resistência a tratamentos por parte de alguns cristãos,
ou o sentimento de culpa por acreditarem que seus episódios depressivos decorrem
de pecado ou por não estarem orando o suficiente (2009, p. 55).
Contrário
a esse tipo de pensamento, igualmente rejeitado pelo psiquiatra em questão, Charles
Spurgeon, conhecido como o Príncipe dos Pregados do século XIX, e vítima
de terríveis crises depressivas, descreveu bem a depressão e a relacionou com
tipos de doenças que “afetam o cérebro e todo o sistema nervoso...”, e
que, de forma involuntária, isto é, independente da vontade da pessoa, traz
sobre o doente “a infelicidade da mente, a depressão do espírito e a aflição do
coração (...)”. Ele continua dizendo que
pode nem haver razão real para a tristeza e, mesmo assim, “você pode vir a tornar-se
um dentre os homens mais infelizes, porque, por ora, seu corpo subjuga a sua
alma” (2015, p.40).
Assim
como ocorreu a Spurgeon, é possível verificarmos sintomas de depressão em
personagens bíblicos tais como os profetas Elias e Jonas - que pediram para
morrer; em Ana – que rejeitou comer e só chorava; em Davi – que compôs inúmeros
salmos falando de sua inércia diante de sentimentos depressivos; em Jó e
Jeremias – que diante de tamanha dor e sentimento de inutilidade desejaram
nunca terem nascido; e em Noemi – que após perder o marido e seus filhos,
confessou se sentir uma pessoa amarga, isto é, sem alegria na vida.
Uma
vez entendida a relevância desse assunto, vamos nos ater a esse tema apresentado
pela via da literatura secular, exposto em gênero lírico, isto é, por
meio de poemas. Vale lembrar que ao falarmos em poema, tratamos de um gênero textual escrito em versos e separado em estrofes - verso é cada linha de
um poema, e estrofe é o conjunto de versos.
Do mesmo modo, ressalto a importância em
se fazer distinção entre poema e poesia, uma vez que o primeiro se
trata da estrutura do texto que é escrito em verso e “a poesia é comunicação,
efetuada por meio de palavras ou não, geralmente permeada por conteúdos
psíquicos, sejam eles de ordem afetiva, sensorial ou conceitual, sempre
repletos de sensorialidade ou sentimentalidade” (1). Ou seja, podemos
encontrar poesia em qualquer coisa que for dotada de sentimento, de emoção, de
sensibilidade, inclusive nos poemas.
Assim também é
importante, ao ler esse gênero literário, não confundir autor e eu
lírico – aquele é o que escreve o poema – e o outro é a voz ou o sujeito
por meio de quem o autor expressa sua subjetividade. Com relação a esse
sujeito poético foi que o poeta Fernando Pessoa iniciou um de seus famosos
versos explicando que “o poeta é um fingidor”, isto é, nem tudo o que ele
expressa no poema é de experiência própria, mas é vivido pelo eu lírico.
Uma vez entendido o que é poema e a realidade da depressão nos
dias hodiernos (atuais), vamos imergir na subjetividade de Carlos Drummond de
Andrade, considerado um dos maiores poetas do Brasil, e indispensável no entendimento
e consolidação da escola literária denominada Modernismo. (2)
Uma das características de seus poemas é a criticidade com que ele trabalha temas diversos e a autorreflexão, ora mostrando um desencanto com a vida, ora aliando à triste realidade de viver uma receita que, ao menos, possa minimizar o torturar-se e o consumir-se que, a princípio, ele enxerga ser o ato de viver. Como exemplo desse modo de entender a existência, segue o poema Nascer de Novo, do qual faremos uma análise comparativa fazendo um diálogo com a Bíblia Sagrada.
Assim, façamos uma leitura cuidadosa, sentindo cada palavra do poema.
NASCER DE NOVO
Nascer, findou o sono
das entranhas.
Surge o concreto,
A dor de formas
repartidas,
Tão doce era viver
Sem alma, no regaço
do cofre maternal,
sombrio e cálido.
Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste
lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e sua lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se,
consumir-se
à mingua de qualquer
razão de vida?
Eis que um segundo
nascimento,
não adivinhado, sem
anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
o tempo se redoura,
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de
existir.
O real veste nova
realidade,
a linguagem encontra seu
motivo
até mesmo nos lances de
silêncio.
A explicação rompe das
nuvens,
das águas, das mais vagas
circunstâncias:
Não sou eu, sou o Outro
que em mim procurava seu
destino.
A minha festa,
o meu nascer poreja a
cada instante
em cada gesto meu que se
reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
Nos primeiros versos, parece-me ouvir Jó, sucumbido pela dor,
reclamando por ter nascido, de modo que, ao refletir sobre a realidade da vida,
ele preferiu ter sido abortado a nascer (Leia Jó 3.1-23). E o primeiro verso desse
poema declara que a vida é feita de dores que se apresentam de várias formas,
de modo que o eu lírico, assim como Jó, se desencanta dela. Eis aí um sintoma
característico de depressão, pois, sob sua influência “algumas pessoas perdem o
interesse e o prazer a tal ponto que ficam apáticas, alheias ao mundo,
desinteressadas, passando a apresentar vontade recorrente de morrer”, conforme assevera o Dr. Ismael Sobrinho, (2019, p.91)
Voltando ao poema de Drummond, na segunda estrofe, o eu
lírico mostra outro aspecto da vida que o deprime: a falta de resposta às suas indagações – “Sondamos, inquirimos sem resposta”. Ele pergunta por
que nada é tão simples como do outro lado (no ventre materno), e torna a se
perguntar se o que sobra da vida (a qual ele sente como sendo um lugar de exílio)
“é tudo guerra e dúvida”. Para ele, suas indagações sem resposta, e a luta
diária que se empreende pela vida, fá-lo cogitar que viver nada mais é do que torturar-se,
consumir-se a procura de respostas que não existem, em outras palavras, ele
possui a ideia de que viver é lutar por nada.
Será que você, leitor, se sente ou já se sentiu desse modo?
Creio que todos nós já vivenciamos decepções na vida que nos fizeram indagar o
seu sentido real. Isso é refletir, é ter consciência, é ser humano. O perigo acontece
quando esses sentimentos tomam conta de nós e nos deixam apáticos com a vida, muitas
vezes, pensando em desistir dela. Esse pensamento é perigoso e é necessário buscar
ajuda, inclusive psicológica.
Mais adiante, o poema dá uma girada na direção oposta ao que começou, pois na terceira estrofe o eu lírico vivencia uma nova experiência de vida. Ele se sente como se nascera de novo. Sobre esse novo nascimento, ele diz que aconteceu como no primeiro, sem que ninguém soubesse ao certo o momento exato. No primeiro nascimento, após o parto, seu protesto é em relação a sair do conforto do silêncio e da inocência de quem nada sabe, ao desligar-se da mãe cujo ventre o guardava em segurança, e adentrar em uma vida de incertezas.
Ao nascer de novo, é como se ele encontrasse novamente
alguém a quem se ligar para encontrar a estabilidade perdida pelo parto, reencontrando o
conforto de não estar só na vida. Segundo o poema, esse renascimento não
aconteceu de forma literal, mas foi gerado pelo sentimento chamado AMOR. Bem diz
a Bíblia que “o amor é o vínculo da perfeição” (Leia Cl 3.14). Ele nos liga a tudo
que é bom e perfeito.
Uma vez amando, a atenção do eu lírico não está mais em si
mesmo, mas no objeto amado, isto é, na pessoa a quem ama. Ele afirma não ser
mais ele, mas o outro que procura encontrar nele o seu destino. Nessa nova
realidade o eu lírico encontra sentido em viver, embora não compreenda a vida por
inteiro, “a linguagem” – as palavras – “encontra seu motivo, até mesmo no
silêncio”, confessa ele. Afinal, o amor é expresso pelo sentimento e não por
palavras, de modo que sua realidade pode ser sentida mesmo sem ser
compreendida.
O sentimento que ele experimenta é suficiente para lhe dar um
novo significado para a vida. E, por amar, ele passa de ser pensante a sujeito atuante,
de modo que ele diz renascer em cada gesto seu “que foi reduzido a ser
retrato, espelho e semelhança de gesto alheio aberto em rosa”. Nessa nova realidade, o eu lírico vive para o outro, e suas emoções são proporcionadas à medida que o outro se satisfaz,
uma vez que se sente responsável pela completude alheia.
A Bíblia há muitos séculos já afirmava que podemos ter uma nova vida mesmo nessa existência, que é possível nascermos de novo por meio de uma vivência regida pelo amor. João, em sua primeira carta, admoestou os irmãos a não se esquecerem que desde o princípio a mensagem pregada foi amarem-se uns aos outros, e conclui sua admoestação declarando o seguinte: “Sabemos que já passamos da morte para a vida e sabemos isso porque amamos nossos irmãos. Quem não ama ainda está morto” (3.14) - grifo meu. Percebeu quanta verdade está implícita no texto do poema? Amar, segundo Jesus, é estar pronto para dar a vida pelo outro.
Embora já saibamos que são diversas as causas da depressão, algumas pessoas estão sofrendo desse mal por causa do seu egoísmo exacerbado, de querer para si aquilo que é do outro ou em viver uma vida de comparação e disputa que acaba por levá-lo a sentimentos de humilhação e baixa autoestima. Talvez você seja uma dessas pessoas que, assim como o eu lírico do poema de Drummond, vive maldizendo a sorte porque seu pensamento está muito concentrado em si mesmo e, por isso, não consegue ver a beleza da vida fora dos teus próprios interesses.
Sendo esse o caso, Jesus te faz o mesmo alerta que fez a Nicodemos quando este foi procurá-lo: "É necessário nascer de novo”. Esse nascimento não é da carne, como explicou Cristo, mas uma vida no Espírito de Deus. Em Cristo, somos capazes de amar até os nossos inimigos, e, por certo, com a visão carregada do amor divino, você será capaz de enxergar a vida exatamente como uma rosa, flor esta citada no final desse magnífico poema: apesar de ser cheia de muitos e pontiagudos espinhos, ela traz consigo beleza e perfume singulares.
Pois bem, leitor, esse é
o papel da literatura lírica, fazer surgir e expor os sentimentos, percepções,
incômodos, medos, indagações, alegrias, paixões, e nos fazer refletir para arrancar
de nós o que nos faz seres humanos: a subjetividade escondida em nosso eu
interior.
Que a graça de Deus e o amor de Cristo sejam transbordantes em teu coração, fazendo-te bênção para os que procuram em você encontrar o seu destino.
08/7/2022
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Carlos Drummond
de. A paixão medida. 5 ed.- Rio de Janeiro: Record, 1998
ESWINE, Zack. A
depressão de Spurgeon: esperança realista em meio à angústia. São José dos
Campos, SP: Fiel, 2015
SOBRINHO, Ismael.
Depressão: o que todo cristão precisa saber. São Paulo: Editora Vida, 2019
_______________________________________________________________
Notas de rodapé
(1)
https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/o-que-poesia.htm
(2)
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/por-que-carlos-drummond-e-tao-importante-para-a-literatura-brasileira.htm
Professora Leila Castanha
Graduada em Letras, Pedagogia, Bacharel em Teologia, pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura no contexto educacional, pós-graduanda em Teologia e Pensamento Religioso, pós-graduanda em Literatura Brasileira no Contexto da Literatura Universal .
Atua como professora de Língua Portuguesa, Língua Inglesa (anos iniciais do ensino fundamental) e Ensino Religioso, em São Paulo - SP
Em seus passos: estudos bíblicos
Depressão como consequência da racionalidade e os caminhos
para amenizá-la
Diferentemente
dos demais animais direcionados por instintos absolutos, que orientam e
determinam seu agir e querer, o ser humano pensa sobre si mesmo, valida ou
invalida seus instintos e pondera sobre a realidade concreta e o mundo
possível. Esse ser distinto, não controlado pelas determinações instintivas,
desenvolve desejos, estabelece metas; anseia. Esse ser pensa. Apesar da
influência social, seu pensamento não se limita às determinações psíquicas de
sua espécie ou de sua raça. O homem, como indivíduo dotado de liberdade,
curiosidade, criatividade e desejo, almeja relações ou coisas a partir de sua
subjetividade, de sua interioridade, amiúde, independente de quaisquer convenções
coletivas ou influências sociais diretas. O indivíduo humano processa suas
experiências existenciais interpretando-as. Tal interpretação nem sempre se dá
com a clareza racional, regularmente se realiza amalgamada com emoções. Sendo
de tal forma distinto, o animal humano sofre, pois, em sua subjetividade, se
fazendo um "eu" não aderido ao coletivo, não se satisfaz com as convenções, não se
contenta com o estabelecido, em sua peculiaridade de “ser um si mesmo”, em suas
aspirações únicas, singulares, percebe-se deslocado.
As
intrínsecas e peculiares características do homem fazem dele um ser com
potencial à depressão. De acordo com o site Biblioteca Virtual em Saúde:
A
depressão é uma doença que se caracteriza por um período mínimo de duas semanas
em que a pessoa se sente triste, melancólica ou “para baixo”, com sensações de
aperto no peito (angústia), inquietação (ansiedade), desânimo e falta de
energia. O indivíduo permanece apático, perde a motivação, acha tudo sem graça
ou sem sentido, torna-se pessimista e preocupado. Tal estado afeta o organismo
como um todo e compromete o sono, o apetite e a disposição física.[1]
Um
ser que pensa por si, que estabelece ideias sobre o bem e o mau, sobre o
adequado e o inadequado, sobre o ideal e o imperfeito, a partir de sua
interpretação da realidade estabelece expectativas sobre sua vida, essa
expectação se faz um dos fatores de maior potencial para o desenvolvimento da
depressão. Um ser que almeja, é em potencial um ser que se frustra. Um sujeito
que avalia, em potencial, não é apenas alguém que qualifica o outro, o objeto
externo, mas um indivíduo que tende a cobrar-se. Uma pessoa que idealiza a
realidade a partir de um quadro comparativo, tem uma forte tendência a se
entristecer por perceber que sua vida ou o seu ser não alcançam o nível ou o
status do objeto ou de uma condição existencial eleitos como adequados.
O
Livro Sacro dos judeus, chamado de Antigo Testamento pelos cristãos, expõe a
fragilidade emocional desse ser que desenvolve expectativas, se frustrando com
o não estabelecimento daquilo que considera assaz importante, mesmo tendo, em
sua literatura, vários desses homens considerados heróis. Em uma explícita
situação de melancolia, um dos traços marcantes da depressão, o livro de
juízes, pertencente à coleção bíblica judaico-cristã, apresenta Gideão, um dos
notáveis homens da Bíblia, frustrado com Deus, pois sua crença e esperança em
uma divindade intervencionista a favor de seu povo, em prol de sua nação, não
se concretizou. A partir da fala de um mensageiro, de que Deus era com ele, o
herói frustrado com a não concretização de sua expectativa, em estado
depressivo, responde: “se o Senhor está conosco, por que
aconteceu tudo isso? Onde estão todas as suas maravilhas que os nossos pais nos
contam quando dizem: ‘Não foi o Senhor que nos tirou do Egito?’ Mas agora o
Senhor nos abandonou e nos entregou nas mãos de Midiã”.[2]
Na
passagem em destaque, o estado de prostração e de pessimismo de Gideão é de
fácil identificação. O homem e mulher, que mentalmente estipula situações
corretas ou incorretas, favoráveis ou desfavoráveis, justas ou injustas, ao se
deparar com o que ele ou ela entende como realização negativa, como quadro adverso,
entra no estado melancólico, de acentuado pessimismo, ao qual chamamos de
depressão. Ainda envolvido no mesmo diálogo com o mensageiro de Deus, que afirma
que seu Senhor estaria com ele na missão de libertar o seu povo da opressão
introduzida pelos inimigos midianitas, o depressivo Gideão continua em tom de
descrença: “Ah, Senhor", respondeu Gideão, "como posso
libertar Israel? Meu clã é o menos importante de Manassés, e eu sou o menor da
minha família”.[3]
Essa nova resposta revela a baixa autoestima, sentimento negativo sobre si
mesmo, que impede de o indivíduo perceber em si qualidades ou potencialidades,
um dos sintomas de alguém que está em depressão ou a desenvolvê-la.
A
filosofia estoica apresenta duas virtudes que ajudam a proteger o ser humano da
depressão. A aphateia, ou ausência de paixões e a resignação, isto é,
aceitação ao inexorável, ao que não pode ser mudado, ao inevitável. Quanto menos paixão pelas coisas, mais
desapegados somos, menos sofremos, porque menos esperamos, assim, nutrimos
menos expectativas. Ademais, se somos resignados sofremos menos porque
aprendemos a aceitar o já estabelecido em nossas vidas ou em nossa realidade.
Aprendemos aceitar o que não depende de nossos esforços para ser evitado.
Porém, a proposta estoica não elimina a pergunta: como alcançar as destacadas
virtudes? Está em nosso poder alcançá-las. O nosso desejo de alcançar a
resignação ou a aphateia garante a sua realização?
O
cristianismo antigo apresenta direções que, apesar de não invalidar a proposta
estoica, apresenta um outro sentido para o apaziguamento da alma: “Eu
disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão
aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”.[4] Se é um fato de que na
existência somos confrontados com a dureza do mundo, afrontamento esse que pode
nos levar à depressão, sob outra perspectiva, podemos olhar para o triunfo de Jesus
como inspiração, e inspirados nele temos a força suficiente para triunfar,
vencendo as aflições que, por vezes, nos esmorecem. Em Cristo temos a certeza
de que firmados em seu triunfo, também podemos triunfar. O salmista Davi, em um
dos salmos mais belos, poetiza:
O
SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.
Deitar-me
faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.
Refrigera a
minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.
Ainda
que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu
estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. [...]
Certamente
que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e
habitarei na casa do Senhor por longos dias.
Essa
bela poesia apresenta o estado de paz vivenciado por um indivíduo que, apesar
de passar por situações difíceis e extremas, revela a segurança e conforto de
alguém que nutre uma relação com Deus.
A razão e a criticidade são fundamentais para o desenvolvimento do homem, sem essas ferramentas racionais, seguramente estaríamos em um estágio intelectual primitivo, porém, como diz Jesus, nem só de pão vive o homem. É indubitável que a praticidade e a racionalidade da vida objetiva são muito importantes para o desenvolvimento do homem, para o seu aperfeiçoamento, para o estabelecimento de estruturas que possibilitaram maior conforto para a vida, porém, o aspecto prático e objetivo não esgotam a vida humana e as necessidades do homem. A ciência, a psicologia e as disciplinas humanas como a filosofia e a sociologia, apresentam importantes reflexões para o problema da depressão, ponderações que devem ser seriamente consideradas. Porém, os problemas do homem e da mulher também podem ser abordados por outros prismas. Todo cristão assume que o homem em sua integralidade é uno em corpo e alma. Com essa múltipla dimensão de una composição, o cristianismo aponta outras respostas para a angústia do homem, e nessa resposta apresenta a necessidade de o indivíduo humano se relacionar com o transcendente, com Deus. Nessa relação ele pode encontrar um novo sentido para a sua existência, diminuindo a ansiedade promovida pelo desejo exacerbado de pertencimento, de satisfação estética, de aceitação social ou mesmo de um individualista desejo de justiça limitado pelo egocêntrico desejo de autossatisfação, que não contempla a profundidade da justiça ideal. Em Cristo, vencer o mundo é o estabelecimento do triunfo sobre o que é danoso ao ser humano. A depressão é um dano ao ser humano. Todo homem e toda mulher devem se sentir convidados a buscar a cura em Cristo e em sua palavra inspiradora que promove vida, pois essa angústia pode ser apaziguada pela fé, pela relação do homem com Deus.
07/07/22
[1] MORENO, Ricardo. Temas em psiquiatria. IPq HCFMUSP, 2016. Disponível em: http://neurociencias.org.br/temas-em-psiquiatria/. Acesso em: 07 jul. 2022.
[2] BÍBLIA ONLINE. Juízes 6:13. Disponível em:
https://www.bibliaonline.com.br/nvi/jz/6/. Acesso em: 07 jul. 2022.
[3] BÍBLIA ONLINE. Juízes 6:15.
Disponível
em: https://www.bibliaonline.com.br/nvi/jz/6/. Acesso em: 07 jul. 2022.
Nutrição: sua aliada no combate à depressão
Caro leitor, a depressão é um
transtorno que acompanha a humanidade ao longo de sua história. Você pode ter
acompanhado de perto os seus sintomas: tristeza, pessimismo, baixa autoestima,
que aparecem com frequência e podem se combinar entre si. A OMS (Organização Mundial da Saúde) a define
como “mal do século", no entanto, o primeiro registro data de tempos bem
mais antigos, tendo ocorrência no século IV a.C., onde foi definida por
Hipócrates (pai da medicina) como Melankholia = bile negra.
A intervenção nutricional na
prevenção e/ou redução da intensidade das crises se torna uma grande aliada
nesta luta, por se tratar de uma dieta adequada e balanceada, pois busca maneiras
de reduzir os números de casos depressivos com a utilização de alimentos ricos
em substâncias benéficas, como os ácidos graxos, ômega 3, vitaminas do complexo
B, minerais e aminoácidos, precursores de neurotransmissores.
Vários estudos têm demonstrado
a importância da microbiota intestinal, através da comunicação com o sistema
nervoso central, por meio do eixo intestino-cérebro. Ela é capaz de produzir
uma variedade de neurotransmissores, substâncias neuro ativas e metabólitos
como GABA, serotonina (hormônio da felicidade), catecolaminas e acetilcolina neuro
ativas, as quais exercem influência sobre o eixo cérebro-intestino.
A exposição crônica ao
estresse também altera a microbiota, e tem um efeito deletério sobre os
processos imunológicos, por meio do aumento de bactérias que alimentam a inflamação,
tornando os indivíduos mais vulneráveis à ansiedade e depressão.
A deficiência ou carência de
nutrientes em decorrência dos distúrbios da microbiota leva a diminuição da
serotonina e, consequentemente, a quadros depressivos, de modo que cuidar do
sistema gastrointestinal e adquirir bons hábitos através de inclusão de
alimentos in natura (frutas, verduras e legumes), alimentos probióticos, chás
fitoterápicos, suplementação (caso necessário), é uma estratégia promissora,
uma vez que beneficia a saúde e o bem-estar físico e emocional.
Talvez você esteja pensando:
Não tenho ânimo para preparar uma alimentação saudável, meus dias têm sido
difíceis! Nesse caso, converse com alguém sobre sua suspeita em relação aos sintomas
depressivos, e lembre-se de que, embora muito importante no processo do tratamento
e cura, a fé, por si só, não imuniza os transtornos mentais.
A Bíblia relata essa realidade,
mostrando experiências de homens dedicados a Deus que, embora fossem pessoas de
fé, passaram pelos becos escuros do transtorno, porém Deus lhes
acendeu uma luz de esperança, através da sua maravilhosa graça.
Como exemplo do fato acima
exposto, encontamos nas Escrituras a história de uma mulher, Noemi, que sofreu em
sua vida grandes perdas (marido e seus dois filhos), fato esse que lhe trouxe
grande tristeza e amargura, conforme se observa no texto bíblico a seguir:
“Não me chamem de Noemi, respondeu ela.
Chamem-me de Mara, pois o Todo-poderoso tornou minha vida muito amarga. Cheia
eu parti, mas o Senhor me trouxe de volta vazia. Por que me chamar de Noemi se
o Senhor me fez sofrer e se o Todo-poderoso trouxe calamidade sobre mim?” (Rute
1: 20,21)
Perceba que ela perdeu a
alegria de viver e tentou se isolar da família que restara, pois se sentiu
abandonada pelo Todo Poderoso. Inclusive, renegou o próprio nome que, em hebraico,
significa “encantadora”, “agradável”. Sua situação a tornara uma pessoa “amarga”. No entanto, Deus restaurou a alegria de Noemi, através da amizade da
sua nora Rute.
Talvez, você tenha sofrido
perdas significativas e a sua visão sobre a vida tenha sido comprometida. Deus
te ama e quer tirá-lo desse sofrimento e, providencialmente, colocar em seu
caminho pessoas para te ajudar.
Quem sabe, nesse momento, a
Rute da sua vida seja um profissional da nutrição que, através de suas técnicas,
poderá te direcionar às escolhas assertivas, planejadas e organizadas em sua
alimentação diária.
“Rute” vem para aplainar os teus
caminhos, através da orientação nutricional, psicológica, médica, e do olhar
atento e amoroso dos familiares e amigos.
Permita-se aos cuidados de
Rute!